Especialista da Cooxupé analisa os impactos das chuvas, a maturação desigual dos frutos, as floradas antecipadas e os cuidados necessários para o próximo ciclo

A safra de café 2026 foi marcada por diferenças no desenvolvimento das lavouras nas regiões de atuação da Cooxupé.
As condições de temperatura, disponibilidade de água e altitude influenciaram o desempenho das plantas ao longo do ciclo produtivo.
Apesar do período favorável ao enchimento dos grãos entre janeiro e março, os cafeicultores enfrentaram seca, calor elevado, maturação desuniforme e chuvas durante a colheita, que dificultaram as operações e exigiram atenção à qualidade dos cafés.
Com mais de 22 mil cooperados, a Cooxupé está presente em mais de 370 municípios das regiões do Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e Média Mogiana do estado de São Paulo.
Nessas áreas, as condições climáticas provocaram impactos distintos nas lavouras.
Com o encerramento da colheita, o foco dos produtores se volta para 2027, especialmente diante das floradas antecipadas e da necessidade de recuperação das plantas.
Para analisar os resultados da última safra, os desafios enfrentados pelos cafeicultores e as perspectivas para o próximo ciclo, o Hub do Café conversou com Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador de Geoprocessamento do Departamento de Desenvolvimento Técnico da Cooxupé.
O especialista explica os fatores que influenciaram a produção, avalia as condições das floradas e orienta sobre os cuidados necessários com solo, nutrição, sanidade e manejo das lavouras.

Safra de café 2026: resultados e desafios
Com a colheita da safra 2025/2026 finalizada, qual balanço técnico pode ser feito nas regiões de atuação da Cooxupé?
Quais foram as principais características e desafios observados nesta safra?
Guilherme Teixeira: O balanço técnico da safra 2026 evidencia, principalmente, a grande heterogeneidade entre as regiões de atuação da Cooxupé.
As respostas das lavouras foram diferentes conforme altitude, temperatura, disponibilidade hídrica, características do solo e condição fisiológica das plantas.
De maneira geral, as áreas mais quentes foram as mais afetadas, com destaque para a região dos Lagos, no Sul de Minas, a Média Mogiana de São Paulo e áreas do Cerrado Mineiro, onde temperaturas mais elevadas e maior restrição hídrica exerceram pressão sobre as lavouras em momentos importantes do ciclo produtivo.
A safra também passou por fases bastante distintas.
No início do período reprodutivo, entre setembro e novembro de 2025, ocorreram períodos de seca e temperaturas elevadas que, em algumas localidades, provocaram maior estresse das plantas, abortamento de flores e chumbinhos e redução de parte do potencial produtivo.
A partir de dezembro, o retorno de chuvas mais regulares proporcionou melhores condições para o desenvolvimento dos frutos.
Entre janeiro e março de 2026, houve boa disponibilidade de água e condições favoráveis à granação, resultando, de modo geral, em bom enchimento, peneiras médias e rendimento dos grãos.
Na fase de maturação e colheita, surgiram novos desafios.
Em abril e maio, a irregularidade das chuvas, associada à elevada amplitude térmica, acelerou a maturação em algumas áreas e aumentou a desuniformidade dos frutos.
Posteriormente, as precipitações durante a colheita, especialmente no inverno, interromperam operações, prolongaram a permanência dos frutos na lavoura, aumentaram a queda de café no chão e dificultaram a secagem, trazendo maior preocupação com a preservação da qualidade.
É importante destacar também a dificuldade de recolher o café caído após as chuvas.
Assim, a safra 2026 foi marcada por um bom período de granação, mas também por forte variabilidade regional, com impactos mais evidentes nas regiões mais quentes e desafios relacionados à disponibilidade de água, maturação, colheita e qualidade final dos cafés.
Maturação desigual dos frutos
A maturação dos frutos ocorreu de forma desigual em algumas áreas. Quais fatores contribuíram para esse cenário e de que maneira isso interferiu na condução e no período da colheita?
GT: A maturação ocorreu de forma desigual, principalmente pela combinação entre diferenças no momento das floradas, temperatura, disponibilidade de água, altitude, carga produtiva e condição fisiológica das lavouras.
Como os frutos foram originados de floradas em momentos distintos, naturalmente entraram na fase de maturação em épocas diferentes.
Além disso, nas áreas mais quentes e submetidas à maior restrição hídrica, o metabolismo dos frutos foi acelerado, enquanto ambientes de maior altitude e temperaturas mais amenas apresentaram evolução mais lenta.
Da mesma forma, na parte superior da planta, com maior incidência de luz, a maturação foi acelerada.
Em abril e maio, a ocorrência de chuvas irregulares, associada à elevada amplitude térmica, que induz a produção de etileno, hormônio relacionado à maturação, também contribuiu para aumentar essa diferença.
Em algumas lavouras, parte dos frutos avançou rapidamente de verde para cereja e, depois, para seco, enquanto outros ainda permaneciam em estágios anteriores.
Dessa forma, uma mesma planta podia apresentar simultaneamente frutos verdes, maduros e secos, reduzindo a uniformidade necessária para definir o melhor momento de início da colheita.
Na prática, essa condição tornou a operação mais complexa.
Em algumas áreas, foi necessário aguardar um maior percentual de frutos maduros, aumentando o risco de os mais adiantados secarem ou caírem. Em outras, foi preciso iniciar a retirada mais cedo ou realizar uma colheita seletiva.
Em seguida, as chuvas agravaram esse cenário, interrompendo as operações e prolongando o tempo necessário para a retirada dos frutos.
Assim, a combinação entre maturação desuniforme e instabilidade meteorológica ampliou a janela de colheita em algumas regiões e exigiu maior planejamento para preservar o rendimento e a qualidade.
Café de chão e riscos à qualidade
As chuvas durante a colheita fizeram com que alguns cafés caíssem e permanecessem no chão.
Do ponto de vista técnico, quais são os principais riscos dessa situação para a qualidade dos grãos? O que pode ser feito com esse café?
GT: As chuvas durante a colheita aumentaram a quantidade de frutos que caíram e permaneceram em contato com o solo.
Do ponto de vista da qualidade, o principal problema é que esse ambiente reúne umidade elevada, matéria orgânica e maior carga de microrganismos, favorecendo fermentações indesejáveis e a deterioração dos frutos.
Quanto maior o tempo de permanência no chão, principalmente sob condições úmidas, maior o risco de desenvolvimento de sabores e aromas indesejáveis, presença de fungos, contaminações, aumento de defeitos e perda de qualidade da bebida.
Isso não significa que todo café de chão esteja automaticamente perdido.
O mais importante é realizar a retirada o mais rapidamente possível e manter esse material separado daquele colhido diretamente da planta.
Após o recolhimento, deve-se fazer uma boa limpeza, retirando terra, pedras, folhas e outras impurezas, além de conduzir o processamento e a secagem de forma criteriosa.
Esses lotes devem ser secos separadamente e avaliados quanto à qualidade antes da comercialização, evitando que um café de menor qualidade comprometa um lote superior.
Além da questão comercial, a retirada do café de chão também deve ser entendida como uma medida fitossanitária.
Uma varrição bem conduzida reduz a permanência de frutos remanescentes na lavoura e ajuda a diminuir a população de broca-do-café que poderia permanecer no campo entre uma safra e outra.
Esses frutos podem funcionar como abrigo e fonte de alimento para o inseto durante a entressafra.
Quando há elevada umidade e grande quantidade de café remanescente, aumenta a possibilidade de sobrevivência da praga e de formação de focos que podem dar origem a novas infestações no ciclo seguinte.
Portanto, o foco deve estar na rapidez da retirada, separação dos lotes, secagem adequada, classificação e na não mistura com cafés de melhor qualidade.
A eliminação de frutos remanescentes após a colheita também contribui para reduzir a pressão da broca na próxima safra.
Floradas antecipadas e impactos para 2027
Em algumas áreas, as chuvas também favoreceram a abertura de floradas antes mesmo do encerramento completo da colheita.
Como essas floradas precoces devem ser avaliadas e quais impactos podem ter sobre a safra 2026/2027?
GT: Nesse caso, a principal preocupação não é apenas a antecipação fisiológica da florada, mas a sobreposição de duas safras na mesma planta.
Em algumas áreas, as chuvas estimularam a abertura das flores enquanto ainda havia frutos da safra 2026 nos ramos.
Isso fez com que o cafeeiro apresentasse, simultaneamente, frutos em fase de colheita, flores abertas e, em alguns casos, os primeiros chumbinhos que irão compor a safra 2027.
Essa condição é delicada porque a colheita provoca intensa movimentação física dos ramos.
Tanto na operação mecanizada quanto na manual, a vibração, o contato com os ramos e a derriça dos frutos podem provocar queda de flores, danos aos botões florais e desprendimento de chumbinhos recém-formados.
Essas estruturas são muito sensíveis e representam justamente o início do potencial produtivo do próximo ciclo. Portanto, quanto maior a sobreposição entre colheita e florada, maior o risco de que parte desse potencial seja perdida por dano mecânico.
Além disso, essas floradas antecipadas precisam ser acompanhadas após a retirada da safra. Não basta avaliar a quantidade de flores abertas: é necessário observar o pegamento, a permanência dos chumbinhos, a recuperação da área foliar, o estado nutricional e a disponibilidade de água.
Outro aspecto importante foi a ocorrência de chuvas em diferentes momentos durante o inverno, reduzindo a definição de um período seco contínuo e contribuindo para uma menor sincronização das floradas.
As gemas florais encontravam-se em diferentes estágios de desenvolvimento e, com sucessivos eventos de chuva e reidratação das plantas, ocorreram aberturas em momentos distintos, resultando em várias floradas para próxima safra.
Essa condição já representa um desafio para o próximo ciclo. Frutos originados de floradas diferentes também estarão em estágios distintos de desenvolvimento e tendem a atingir a maturação em épocas diferentes.
Com isso, podemos novamente ter maior desuniformidade, presença simultânea de frutos verdes, maduros e secos e uma janela de colheita mais complexa em 2027.
Por isso, além de acompanhar o pegamento dessas floradas, será importante observar como elas evoluem ao longo dos próximos meses e qual será a participação de cada uma na composição efetiva da próxima safra.
Cuidados com a lavoura após a colheita
Com a colheita encerrada, em que momento do ciclo produtivo o cafeicultor se encontra agora e quais manejos devem receber maior atenção nas lavouras?
GT: Com a colheita encerrada, o cafeicultor entra em uma fase de transição muito importante do ciclo: o pós-colheita coincide com o período de pré e pós-florada e com o início da retomada do crescimento vegetativo e reprodutivo das plantas.
É o momento em que o cafeeiro precisa se recuperar do esforço produtivo da safra anterior, recompor sua área foliar, restabelecer reservas e, ao mesmo tempo, sustentar as flores e os primeiros chumbinhos que irão formar a safra 2027.
Por isso, os manejos devem ser direcionados principalmente à recuperação e ao equilíbrio da planta.
É fundamental avaliar o estado nutricional e realizar as correções necessárias para a fertilidade do solo com base em análises, corrigindo desequilíbrios e fornecendo nutrientes de acordo com a necessidade de cada talhão.
A manutenção de uma boa área foliar também é decisiva, porque são as folhas que sustentam a fotossíntese e a produção de carboidratos necessários para o crescimento de novos ramos, a formação de nós produtivos e o desenvolvimento dos frutos recém-formados.
O equilíbrio e a manutenção hormonal também são importantes.
Outro ponto prioritário é o manejo fitossanitário no pós-colheita e no período de pré e pós-florada.
A lavoura deve ser monitorada para evitar desfolha e danos aos novos tecidos, flores e chumbinhos.
Também é necessário acompanhar a disponibilidade de água no solo, porque a retomada das atividades fisiológicas aumenta a demanda por água e nutrientes.
Em resumo, esse período marca o início efetivo da construção da safra 2027.
Quanto melhor a recuperação da planta, o desenvolvimento radicular em profundidade, o enfolhamento, o crescimento vegetativo, a nutrição, a sanidade e o pegamento das floradas, melhores serão as condições para sustentar o potencial produtivo do próximo ciclo.
Doenças e pragas que exigem atenção
Neste período, quais doenças e pragas exigem maior monitoramento do produtor e que sinais devem ser observados no cafezal?
GT: Neste período de pós-colheita, pré e pós-florada, o monitoramento fitossanitário deve ser intensificado porque a retomada das chuvas, associada ao aumento da umidade e à emissão de novos tecidos, pode favorecer diferentes doenças.
Entre os principais pontos de atenção estão Phoma, cercosporiose e antracnose, além da necessidade de iniciar o monitoramento e a prevenção da ferrugem.
O produtor deve observar a ocorrência de manchas nas folhas, desfolha acima do normal, seca de ponteiros e ramos, lesões em folhas, botões florais e frutos recém-formados, além de sinais de comprometimento das floradas.
Nesse momento, preservar a área foliar e proteger flores e chumbinhos é especialmente importante, pois a planta está retomando o crescimento vegetativo ao mesmo tempo em que inicia a formação da safra 2027.
Entre as pragas, o bicho-mineiro e os ácaros continuam exigindo acompanhamento. No caso do bicho-mineiro, deve-se observar o aparecimento de lesões ou “minas” nas folhas e, principalmente, a evolução da desfolha.
Para os ácaros, alterações na coloração das folhas, aspecto bronzeado, lesões e redução da área foliar são sinais que precisam ser avaliados.
A broca-do-café também merece atenção após a colheita, principalmente em propriedades onde permaneceu maior quantidade de frutos na planta ou no chão, porque eles podem servir como abrigo e fonte de manutenção da população da praga para o próximo ciclo.
Com o desenvolvimento dos frutos originados das primeiras floradas, principalmente nas áreas onde houve antecipação do florescimento, esses frutos estarão mais adiantados fisiologicamente e poderão se tornar suscetíveis à broca antes daqueles provenientes das floradas posteriores.
Por isso, o monitoramento deve começar cedo e considerar as diferenças de desenvolvimento, observando os primeiros sinais de perfuração nos frutos mais adiantados para que o manejo seja realizado no momento adequado.
Mais importante do que trabalhar apenas com uma lista fixa de pragas e doenças é realizar o acompanhamento frequente de cada talhão.
O histórico da área, as condições meteorológicas, o enfolhamento, a carga anterior, a cultivar e a condição nutricional interferem diretamente na pressão fitossanitária.
A recomendação deve ser definida a partir da presença e da evolução do problema na lavoura, com acompanhamento da assistência técnica, evitando que a perda de folhas, flores ou chumbinhos comprometa o potencial produtivo da safra 2027 já no início do ciclo.
Perspectivas e preparação para a safra 2027
O que o produtor deve priorizar daqui para frente para preparar a lavoura para a próxima safra e favorecer produtividade e qualidade?
GT: Daqui para frente, o produtor deve priorizar o equilíbrio de todo o sistema produtivo, porque a construção da safra 2027 já está em andamento.
O primeiro ponto é recuperar a planta após a colheita, preservando e reconstruindo a área foliar, estimulando o crescimento de novos ramos e nós produtivos e garantindo condições para que flores e chumbinhos sejam sustentados.
Para isso, é fundamental avaliar cada talhão individualmente, considerando a carga da safra anterior, o nível de desfolha, o crescimento vegetativo, a condição das raízes, o estado nutricional e a sanidade.
Uma planta bem enfolhada, com sistema radicular desenvolvido e reservas adequadas, tem maior capacidade de suportar oscilações de temperatura e disponibilidade de água e de direcionar energia para o desenvolvimento dos frutos.
O manejo de correção do solo em profundidade e a nutrição também devem receber atenção especial.
A análise química deve orientar correções e adubações, evitando tanto deficiências quanto excessos.
É importante manter o solo protegido, favorecer a infiltração e o armazenamento de água, reduzir a erosão e melhorar as condições para o desenvolvimento radicular.
Em períodos com chuvas mais intensas, aumentam os riscos de escoamento superficial, erosão e lixiviação de nutrientes.
Por outro lado, temperaturas elevadas e distribuição irregular das precipitações podem aumentar rapidamente a demanda hídrica da lavoura. Nas áreas irrigadas, o manejo da água deve acompanhar a necessidade da planta, o armazenamento no solo e a fase de desenvolvimento dos frutos, e não apenas um calendário fixo.
O acompanhamento fitossanitário deve ocorrer de forma contínua.
A retomada das chuvas, o aumento da umidade e a emissão de novos tecidos podem favorecer doenças, enquanto períodos mais quentes e secos podem modificar a pressão de diferentes pragas.
Ferrugem, cercosporiose, phoma, antracnose, bicho-mineiro, ácaros e broca-do-café devem ser monitorados conforme as condições de cada região e talhão.
Também é fundamental observar as floradas já ocorridas, o pegamento, a permanência dos chumbinhos e as diferenças de desenvolvimento entre frutos originados em momentos distintos.
Especialmente diante de um cenário de El Niño, o planejamento precisa ser ainda mais criterioso.
A preocupação não deve ser apenas com o volume total de chuva, mas com sua distribuição, intensidade e coincidência com as diferentes fases do cafeeiro.
Maior irregularidade das precipitações, temperaturas elevadas e episódios de excesso de umidade podem interferir na nutrição, sanidade, execução dos tratos culturais e no desenvolvimento vegetativo e reprodutivo.
Por isso, o produtor deve trabalhar de forma integrada com solo, raízes, nutrição, equilíbrio hormonal, água, área foliar, fitossanidade, manejo das floradas e monitoramento climático, utilizando a assistência técnica para ajustar as decisões à realidade de cada propriedade.
É esse conjunto de cuidados, realizado desde agora, que cria as condições para maior produtividade, uniformidade e qualidade na próxima safra.
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